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Brasileira é premiada em Concurso internacional de redação para a justiça social

Atualizado: 1 de fev. de 2023

Com trechos do hino nacional brasileiro, menção ao serviço contra aporofobia liderado pelo Padre Júlio Lancellotti e por movimentos como SP Invisível e ARCAH, a história real visibiliza a amizade, respeito e protagonismo de pessoas em situação de rua. A redação foi reconhecida pelo 2022 Writing Contest on Justice and Human Rights apoiado pela Anistía Internacional.


''Procuramos histórias de justiça, amizade, coragem, paciência, perseverança, bondade, perdão, humildade ou sacrifício que ajudem nosso leitor a questionar a categorização e discriminação de qualquer grupo social ou pessoa com base no que vêem na mídia, nas plataformas sociais ou no que ouvem nas conversas cotidianas.''


Foi a partir desta convocação que a comunicadora social Bárbara Tomiatti Giancola, fundadora da agência Comunica com Alma, criou ''O brilho do Sol em Dona menina: ensaio sobre uma amizade transcendente'' uma história que faz jus ao nome deste empreendimento. A redação se baseia em uma história real e aplica as teorias de Comunicação para a Justiça social na prática, uma vez que traz protagonismo para pessoas em situação de rua e humaniza a maneira pela qual nos encontramos e relacionamos com pessoas. Além de trazer o voluntariado como uma via de experiências positivas e de aprendizagem que funciona como uma mão dupla, buscando quebrar o estereótipo de ''salvadores e salvadoras'' muitas vezes replicados em campanhas de comunicação com fins sociais.


A inspiração para escrever veio das lembranças que tenho da protagonista da história. Quis contá-la por uma perspectiva freireana, libertadora e empática. A população de rua e carcerária talvez sejam as mais invisibilizadas e desumanizadas pela sociedade. Utilizei trechos do hino nacional, porque este é o Brasil que eu quero retratar para o mundo: de amor e respeito pela sua população. Comenta Bárbara, que atualmente vive na Espanha para realizar um doutorado em Comunicação para a paz.


Com trechos do hino nacional brasileiro, menção ao serviço contra aporofobia liderado pelo Padre Júlio Lancellotti e por movimentos de organizações sociais como SP Invisível e ARCAH, a redação visibiliza uma história de amizade, respeito e alegria. A redação foi reconhecida como uma das 10 melhores pelo 2022 Writing Contest on Justice and Human Rights apoiado pela Anistía Internacional. O ensaio será traduzido para o inglês e espanhol e será publicado nas redes oficias do concurso. O texto na íntegra você confere a seguir.


Créditos: ARCAH.


O brilho do Sol em Dona menina: ensaio sobre uma amizade transcendente


Naquele dia, pairava um Sol de liberdade, em raios fúlgidos e quentes. Típicos do clima tropical em meio ao verão no hemisfério sul. Era dezembro e estávamos nos organizando junto a uma das maiores iniciativas do terceiro setor destinadas ao resgate e inclusão de pessoas em situação de rua. O objetivo era o de realizar uma ceia para cerca de duzentas pessoas que viviam em um Centro de Acolhida para pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo, no Brasil.


Como todas as megalópoles do mundo, a cidade tem problemáticas sociais, que em contexto latino-americano, são potencializadas devido a todas as consequências ainda pulsantes herdadas pelo período colonial. Segundo dados constatados em junho no ano de 2022 pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (POLOS-UFMG), apenas na cidade de São Paulo, há em torno de 42.240 pessoas vivendo nas ruas. Em todo o país, são pelo menos mais de 180 mil pessoas nesta situação. Uma realidade que perceptivelmente se agrava devido à falta de políticas públicas eficazes e estruturas sociais voltadas à garantia dos direitos humanos. As consequências desta problemática bastante complexa, são a exclusão, racismo, marginalidade e o aumento da violência e do preconceito para com pessoas em situação de miséria e que vivem nas calçadas, pontes e ambientes públicos.


A luta contra a aporofobia, aversão, medo e desprezo por pessoas pobres, é uma movimentação que recentemente vem ganhando voz e se tornado tema de agenda, ainda longe de ser uma realidade em todos os ambientes da sociedade. Trata-se de um sonho intenso, um raio vívido que de amor, esperança e com a ação de lideranças comprometidas, à Terra vem descendo. Um exemplo são as atitudes tomadas pelo Padre Julio Lancellotti, que aplica o seu sacerdócio na Paróquia de São Miguel Arcanjo, arquidiocese que se encontra em um dos bairros periféricos da cidade de São Paulo. Seus esforços para salvar vidas e proteger a população de rua é reconhecido nacional e internacionalmente, recebendo o apoio de artistas, imprensa, premiações, empresas e sendo abraçado por milhares de pessoas sociedade civil, independentemente de suas visões e ideologias religiosas. Julio visa exaltar o legado de mártires em suas mensagens para uma cultura baseada na paz, no amor e na partilha entre irmãos e irmãs e sua missão é reconhecida por grande parte da sociedade brasileira.


Além dos bons exemplos individuais, existem principalmente os esforços coletivos, que se materializam em organizações e em iniciativas de mobilização em rede, que atuam com um olhar assistencialista e que, em alguns casos, visam oferecer oportunidades para pessoas que são socialmente excluídas de possibilidades de viver uma vida com dignidade e respeito. Um destes exemplos é o movimento SP invisível, coletivo que visa contar as histórias de pessoas em situação de rua e torná-las protagonistas da luta pelos direitos humanos. A organização também atua na entrega de donativos, com um papel extremamente importante, principalmente durante o inverno na intenção de preservar vidas. E o outro exemplo, que me permite contar esta história, é o da ARCAH, organização do Terceiro Setor que promove o desenvolvimento social sistêmico de pessoas em situação de vulnerabilidade.


O nome ARCAH carrega o significado de Associação de Resgate à Cidadania por Amor à Humanidade. Trata-se de uma missão cem por cento sinérgica com a minha missão pessoal e a de todos os seres que voluntariamente somam forças e energias em meio a este contexto, com a intenção de criar memórias iluminadas ao Sol do Novo Mundo. Venho me aprofundando em meio aos conhecimentos e ao olhar sistêmico, com o intuito de promover alternativas e soluções com foco em estruturas e sistemas que foram criados pela humanidade e que perpetuam, muitas vezes de forma pré-condicionada, a violência simbólica, o patriarcalismo e a desconexão do ser humano como parte da natureza e do meio ambiente em que vive.


Eu me tornei voluntária desta ONG assim que tive a oportunidade de conhecer o seu trabalho no meio digital e posteriormente em uma feira sustentável. Um dos programas realizados pela organização é o de manter uma horta social urbana, onde pessoas que vivem em centros de acolhida podem ter a oportunidade de receberem a capacitação e formação como agricultores urbanos. Portanto, as hortaliças que são semeadas, cultivadas e colhidas neste projeto têm um caráter duplamente valioso: além de serem alimentos orgânicos, são cultivados por pessoas que estavam em situação de rua e agora tem uma formação especializada. Me acordo que uma das minhas primeiras funções foi a de ajudar na organização da cerimônia de formatura da Horta Social Urbana. Na ocasião, os formandos tiveram a possibilidade de darem seus depoimentos potentes e profundamente emocionantes. Eu pude acompanhar a importância de seres humanos serem tratados como gente. Vi pessoas de todas as idades chorarem de alegria por estarem ali, quando tudo parecia sem esperança e a morte, em algum momento, parecia a única solução. Vi sorrisos, abraços, sentimento de gratidão e construção de laços genuínos de amizade. Foi neste dia em que eu iniciei uma junto a uma mulher que quando sorria, refletia a luz do Sol.


Dona menina é conhecida pela sua risada contagiante e inconfundível. É uma senhora chamada desta maneira devido sua inocência e doçura de menina. Quando a conheci em sua formatura, a vi deslumbrante e deslumbrada. Completamente à vontade naquele ambiente tão acolhedor. Após a cerimônia, fomos até o local das hortas e tivemos um almoço delicioso com as hortaliças colhidas. A partilha daquele alimento tão rico em todos os sentidos, foi bastante simbólica e nutriu em todas as dimensões todas as pessoas envolvidas com este serviço humanitário. Este foi o primeiro dia em que eu a conheci. Logo depois, tivemos um encontro em um projeto desenvolvido exclusivamente para mulheres em situação de rua, em que organizei uma roda de escuta empática para que todas tivéssemos a chance de compartilhar coisas que gostaríamos de dizer, mas no dia a dia não tínhamos oportunidade. Dona menina não quis compartilhar, apenas oferecer a sua escuta atenta e dotada de empatia. Suas colegas compartilharam desde situações muito duras e atravessadas por uma existência ditada por opressões das mais cruéis, até elogios singelos e comentários edificantes, direcionados umas para as outras. Me acordo de uma das mulheres receber um elogio relacionado a excelente educação dos seus filhos, e aquilo a fez cair em lágrimas e se sentir uma mãe extremamente realizada. ‘’A minha missão está sendo realizada. Educar meus filhos é o que me dá forças para continuar lutando.’’ Esse depoimento é comum entre milhares de mulheres de uma pátria que é também mãe, porém não tão gentil com quem não foge da luta e a encara com seus braços e ideais fortes.


Dona menina faz parte deste clã de mulheres. Em nosso terceiro encontro, a amizade se concretizou e transcendeu. Estávamos na ceia natalina em clima de festa e celebração. Uma das atividades era uma gincana com a tradicional corrida de sacos. Tínhamos que fazer duplas para dividir o mesmo saco: cada pessoa da dupla teria que colocar uma o pé direito e a outra o pé esquerdo. As duplas tinham que cruzar a linha final e sempre em um ‘’melhor de pares’’ as duplas ganhadoras iam eliminando as que chegassem em segundo lugar. Havia a classificação para semifinalistas, até chegarem na melhor dupla para uma final. Na escolha de duplas, felizmente o meu olhar se cruzou com o dela. E fizemos uma equipe e tanto! A estratégia partiu dela: quando a corrida iniciar, nós vamos dar saltos altos e vamos fazer isso em sincronia, os nossos pulos precisam ser juntinhos. Quando eu falar ‘’vai’’ você pula e não para até a linha final! Segui suas sugestões. E elas deram mais do que certo! Pouco a pouco, eu e Dona menina fomos eliminando dupla por dupla. Até mesmo as pessoas mais altas e com pernas mais alongadas ficavam para traz em nossa sincronicidade e sintonia de pulos. Liderada por Dona menina, eu nos via ganhar com facilidade e alegria. Aos poucos, os nossos concorrentes na grande brincadeira foram tentando realizar a mesma estratégia, só que a esta altura do campeonato, nós já estávamos completamente entrosadas. Éramos Marta e Formiga no ataque da corrida de sacos. E após muitas gargalhadas, abraços e celebrações chegamos até a final!


Era tudo ou nada! ‘’Pule o mais longe que você puder, mas toma cuidado para não cair. A gente vai ganhar, eu estou sentindo.’’ Disse ela em tom de capitã. E entre olhares, mais risadas imergiam naturalmente em nossas faces. Quando foi dada a largada, seguimos com a estratégia e com o grito de ‘’VAI’’ que me alertava e motivava. Estávamos abraçadas e perfeitamente entrosadas, o sentimento de minha amiga não falhou: fomos vitoriosas! Ao cruzar a linha de chegada, eu recebi um dos abraços mais calorosos e sorridentes de toda a vida. Celebramos como um grande troféu, fruto de um momento de descontração, diversão, fuga da realidade e de muito companheirismo. Dentro da corrida de sacos, eu e Dona menina éramos uma só massa corporal que cooperava para dar passos e pulos firmes ao nosso destino. O que parecia uma gincana sem propósito, se tornou um momento inesquecível e repleto de significados que transcendem a matéria e só podem ser compreendidos a nível de alma.


Naquele dia, eu era a responsável pela atividade recreativa do karaokê. No evento, tivemos que lidar com um imprevisto, pois a energia elétrica do espaço teve de ser toda direcionada para o ambiente da cozinha. Assim, a atividade do karaokê teve que ser adaptada para uma espécie de luau com voz e violão, onde comecei a puxar algumas clássicas da Música Popular Brasileira e as pessoas que tocavam o instrumento musical, se alternavam para poderem participar também. Me acordo que no início, tínhamos cerca de apenas trinta pessoas em nossa roda de canto, as demais se dispersaram. Na tentativa de integrar a grande parte do grupo na iniciativa, passei a perguntar a estas pessoas distantes o que queriam ouvir, até que pediram por canções da linha gospel.


Apesar de não ter tanta familiaridade com este gênero musical, busquei as letras na internet e fui solicitando para que as pessoas me acompanhassem. Já nas primeiras músicas, tínhamos quase todas as pessoas do local em nosso círculo. Tal como um ímã, os louvores atraiam o coletivo, que muitas vezes mesmo sem saber a letra, se aproximavam com as mãos para o alto e os olhos fechados, em conexão com aquilo que acreditavam e seguramente atingindo um outro estado de consciência. Os cantos passaram a serem entoados cada vez mais alto, com mais potência, até atrair todas as pessoas do recinto. Dona menina estava entre o grupo, mais tímida, de olhos fechados e completamente conectada com o momento.


Durante aqueles minutos, eu pude sentir a força da vibração da fé coletiva quando ela é a única esperança para a sobrevivência. A busca de sentido pela vida e o amor transcendem qualquer pensamento religioso, porque esta busca e este estado de espírito independem de crenças. O amor é a substância atemporal, inanimada e transcendente que nos liga em uma teia invisível. Quando os direitos humanos são colocados acima das crenças, podemos agir em função da alma e da busca de sentido sem o intuito de controlar ou manipular, apenas permitindo que o amor possa manifestar-se por ele mesmo. Junto às experiências pessoais transitando entre as ações sociais e o desenvolvimento humano, posso afirmar que experienciar o transcendente não garante a aceleração da expansão da consciência por si só se não houver busca de sentido e um olhar comprometido para com a sociedade. Se não houver um desejo sincero de criar laços de amizade e afeto. Se não houver amor. E foi isso que minha amizade com Dona menina me confirmou.


--- Texto autoral. O ensaio contém fragmentos do hino nacional brasileiro e é baseado em uma história real. O evento narrado aconteceu em parceria com a ONG ARCAH em dezembro de 2019 na cidade de São Paulo.


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Créditos: ARCAH.


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